A tecnologia e eu

Adentrei ao mundo da informática, graças aos meus tios. Eles tiveram os primeiros computadores da família. Adriano foi quem me mostrou pela primeira vez o que era um computador. Ele comprou um notebook e o levou em casa em uma de suas visitas. Não sei dizer o modelo, mas eu tinha entre 9 e 10 anos (1993 – 1994), então devia ser de 286 pra baixo. Aquela tela monocromática me fascinou.  Se não me falha a memória ele estava usando o Lotus-1-2-3 quando percebeu minha curiosidade irritante e resolveu me mostrar um programinha chamado basic. Era só entrar nele, procurar o arquivo chamado Snake ou Gorillas que magicamente um jogo incrível estava disponível. Os teclados eram os controles e me diverti muito com aqueles games. Aprendi a usar intuitivamente o notebook para poder executar os joguinhos. Por um tempo eu achava isso uma grande coisa, mas ai vieram minhas filhas que aprenderam a usar esses gadgets touch screen ultra modernos antes mesmo de largar as fraldas.

Mais para frente, o mesmo tio Adriano, adquiriu um desktop. Um maravilhoso 386 com windows 3.x, e quando eu vi aquela máquina pela primeira vez, fiquei de boca aberta. Só vira algo parecido nas propagandas da IBM com seus IBM PCs mágicos que permitiam ao usuário utilizar um hardware chamado “mouse” para desenhar na tela do computador.  Eu via aquilo e achava demais. Claro que não fazia ideia da serventia. E mais uma vez os games me ajudaram a ganhar familiaridade com o aperelho. Encarei Mahjong, Solitaire, Wolfenstein entre outros. Me lembro que ele fez um upgrade dessa máquina para um processador 486. Foi ai que surgiu o Windows 95. Você pode não acreditar, mas foi uma evolução mágica na forma de utilizar aquela máquina. Operar a máquina tinha ficado muito  mais fácil. E eu lembro dele instalando o W95 pela primeira vez. Na hora eu não fazia ideia, mas hoje, olhando para trás, foi um momento histórico e marcante. Os quatrocentos disquetes que eram usados para instalar o W3.x foram substituídos por um CD. Um CD? Sim, esse objeto que agora já não servia apenas para tocar um Queen maneiro no aparelho de som da sala. Agora dava pra instalar o W95, e o Virtual Pool, e mais uma caralhada de coisa, porque o 486 agora tinha um leitor multimídia. Foi loco.

Mas revolução mesmo aconteceu quando conheci o Diogo. Isso foi na sexta série (1996). Meu novo brother tinha um computador, se não me engano, um Pentium 100. Ele era fascinado por eletrônica e informática. Me apresentou algumas maravilhas desse mundo, como Linux, programação e a fabulosa internet. Linux sem dúvida nenhuma foi a melhor ferramenta de aprendizagem que eu poderia ter conhecido. Aprender a instalar e utilizar esse sistema me tornou um profissional muito melhor. Me ensinou a pesquisar, a tentar e não desistir. Me ensinou sobre software livre e abriu minha mente para outras modalidades de negócio. Mas isso veio depois. Conheci o Linux quando o Diogo me mostrou o Slackware dele rodando o WindowMaker. Era lindo. Esse cara manjava das coisas. Ele manjava de HTML e estava estudando Delphi, eu achei muito fóda. Veja que naquele tempo internet era um bagulho bem diferente do que é hoje. Páginas estáticas, imagens toscas, e nada de vídeos. Os servidores BBS estavam deixando de existir, e eu mesmo só conheci o conceito, mas o Diogo me ensinou sobre eles também. Lembro que fomos a um evento de informática na USP e alteramos a página inicial de todos os computadores e apontamos para uma página que ele tinha no GeoCities, a Looney Page. O logotipo foi criado por mim no Photoshop 4 ou no CorelDraw 6. Era um smile com uma boca zuada, tipo alucinado, a final, era a Looney Page.

Nessa época eu comecei a utilizar com mais frequência um computador graças ao meu tio Clóvis. Ele é artista e naquela época estava levando suas habilidades gráficas para o mundo digital. Ele era solteiro (prestes a se casar com minha tia) e morava com meus avós maternos, assim como minha mãe e eu. Lembro que era uma máquina fenomenal, um Pentium-MMX 233, com Windows 95, e o melhor de tudo, um fax modem. Com esse computador aprendi a programar qbasic, JavaScript e HTML. Aprendi com meu tio a usar o CorelDraw e o Photoshop (óbvio que sem a mesma habilidade, mas que rendeu um logo divertido para a página do Diogo). O Clóvis criava (e ainda cria até hoje) naquele computador artes que me faziam sempre derrubar o queixo, era cada coisa mais incrível que a outra. Acho que a arte em Corel que eu nunca vou esquecer foi a capa do jogo Crash Bandicoot. Levava bons minutos para renderizar, tamanha quantidade de camadas que o desenho tinha. Era perfeito. Só me tornei um usuário avançado porque tive essa máquina para poder explorar. Nessa época, circulavam algumas zines eletrônicas sobre os mais variados temas. Dai que surgiram os primeiros tutoriais de qualidade que me lembro. As conversas mais emocionantes rolavam no MIRC, apesar de já rolar o ICQ e as famosas salas de bate papo da UOL.

Em fim, ganhei meu primeiro computador. Foi minha mãe quem comprou, com um esforço enorme. Meu K6-II 500 Mhz foi comprado em suadas prestações nas Casas Bahia. Muito obrigado mesmo mamãe. Comecei a aprender um pouco mais sobre hardware com o coitado do K6, meu laboratório. Desmontava e remontava a torto e a direito. Perdi as contas de quantas vezes formatei aquele HD. Rodei vários sistemas: Windows 98, XP, Vista, 7, fora distribuições Linux, Slackware, Connectiva, Mandriva, Ubuntu e até o Open Solaris ele rodou. No começo, eu fui meio frustrado,  pois usava o Linux com um winmoden da Motorola. Demorou a aparecer um driver que fizesse ele funcionar redondo. Então eu usava bastante o Linux para aprender a operar, estudar programação, etc. Existia uma revista chamada Revista do Linux (encontrei um histórico aqui) que trazia muitas coisas bacanas para curiosos como eu.

Um pouco depois, comecei a trabalhar em uma escola de informática, onde fiz um curso de montagem e manutenção de computadores, em Botucatu, minha terra natal. Financiado pela minha tia avó Terezinha. Eu tinha acabado de chegar de São Paulo, e ela sabendo que eu era bom nisso, resolveu me dar esse presente. Obrigado tia. Aqui eu já estava dominando o suficiente de Redes e de Hardware para manter a escola funcionando. Aprendi muito por lá com todos os colegas de trabalho. Foi lá também que comecei a dar aula. Nasci profissionalmente naquela escola. Sou grato a todos que compartilharam seu conhecimento me ajudando a crescer. Mas de uma pessoa jamais vou esquecer: o professor Plácido. Ele trabalhava com compra e venda de computadores, e só com peças de qualidade. Um dia ele apareceu com um US Robotics de 33 k. Apesar de ser de apenas 33 k, uma placa pci da US Robotics dava de dez a zero no winmoden da Motorola de 56k. Mas o melhor de tudo é que o Linux reconhecia “automagicamente” este modem. Eu fui ao delírio. Lembro até hoje da primeira vez que conectei meu Slackware  utilizando o novo modem. Eu tive que configurar a discagem dial up manualmente porque, lógico, não existiam versões dos discadores encontrados no mercado brasileiro para Linux. FOI SENSACIONAL. Usei o navegador, acessei meus e-mails, passei a fazer tudo que fazia no Windows utilizando o Linux. Me sentia um hackerzão (só me sentia). Detalhe que eu já fizera isso tudo com o winmodem, mas o prazer de utilizar um modem de verdade é outra coisa.

O tempo foi passando e comecei a sentir a necessidade de novos ares. Foi então que abandonei a escola de informática e nesse mesmo período conheci uma garota inteligente, linda e maravilhosa, que sempre me incentivou a crescer como pessoa, e não por acaso, veio a se tornar minha esposa. Conheci a Ariadne e a galera da FATEC de Botucatu na Rep Neura (república de estudantes). Ela sempre me incentivou a prestar o vestibular, até que eu tentei e consegui entrar. O curso era o de Tecnólogo em Informática para Negócios, onde a grade era dividida em matérias de gestão e também de tecnologia, com enfase em sistemas de informação.

Na faculdade vislumbrei a possibilidade de me tornar um desenvolvedor profissional. Só não sabia a área a seguir, pois não tinha muita noção de como era o mercado. Aprendi Delphi, Pascoal, ASP, e olha, naquele tempo estas já eram linguagens antigas (por volta de 2009). Percebi na faculdade um lugar para te servir como uma porta entreaberta para uma infinidade de opções, e se você quer tornar-se um bom profissional precisa pesquisar muito, mas muito mesmo por conta própria. Veja, eu não estou negando a importância das instituições de ensino, mas somente um diploma na mão não resolve muita coisa quando você cai no mercado. Mas isso é conversa para outro post. Voltando, enquanto eu pesquisava novas ferramentas de desenvolvimento, conheci Java, e acreditei por muito tempo ser esta minha ferramenta de trabalho. Me diverti um pouco com PHP também. Mas graças ao caos e ao universo bondoso,  numa tarde feliz conheci Python e passei a me divertir realmente ao programar.

Quando terminei a faculdade, em dezembro de 2011, passei em um concurso para trabalhar como assistente administrativo na própria FATEC. O pagamento não passava de um salário mínimo  (em torno de 700 reais na época) por 44 horas semanais. Eu ganhei mais como estagiário. Fui encaminhado para trabalhar na biblioteca, e tirando os horários de pico nos intervalos das aulas, a biblioteca estava quase sempre vazia. Eu passei a levar meu notebook, e comecei a desenvolver uma loja virtual para meu cunhado, ele possui uma motopeças, e utilizando Python e Django (um framework sensacional para desenvolvimento web) eu consegui concluir a loja em quinze dias. Pedi demissão no primeiro mês de trabalho e me aventurei nesse mundão como desenvolvedor de software.

Vale ressaltar um fato importante para meu crescimento profissional: fazer parte do mundo do software livre / open source. Por uma questão filosófica, sou mais próximo do software livre, mas em se tratando de mercado, também preciso me apoiar no mundo open source. Mas estes dois cenários me proporcionaram muitas alegrias. Uma delas é pertencer as comunidades. As comunidades de software livre são sensacionais e te ajudam a evoluir, social e profissionalmente de forma fantástica. Pois te permitem trabalhar e mostrar valor em qualquer área onde você possa se sentir útil para colaborar.  Muitas vezes um recém formado precisa mostrar serviço para o mercado, e acredite, a melhor opção é contribuir para uma comunidade de software livre.

Em certo momento, quase abandonei o desenvolvimento de software para me tornar um profissional voltado para área da educação.  Ministrei muitos cursos, inclusive um, do qual sinto  muito orgulho, onde fui convidado a ser responsável por realizar um treinamento para os profissionais do IFI (Instituto de Fomento e Coordenação Industrial), mais especificamente aos profissionais da metrologia aeroespacial. Eles estavam migrando suas planilhas do MS Office Excel  para o LibreOffice Calc e como a programação de macros não é 100% compatível, fui contratado para dar um treinamento de adaptação.

Mas não teve jeito, entre indas e vindas, voltei ao caminho do desenvolvimento de software e confesso sentir-me mais realizado. Fico muito feliz ao identificar as necessidades e materializar softwares para ajudar pessoas a solucionar seus problemas.

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